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a revolta das palavras

a revolta das palavras

o que as sondagens não sondam…

Janeiro 13, 2022

fio de beque

declaração de voto

sou uma empresária de sucesso. os lucros da minha empresa permitem-me distribuir dividendos pelos membros do conselho de administração e pelos diretores de serviços, atribuir prémios aos trabalhadores e até pagar salários acima do que está convencionado. voto no psd, ou, se tiver um pingo de consciência solidária, no ps.

sou uma empresária de sucesso. os lucros da minha empresa permitem-me distribuir dividendos pelos membros do conselho de administração, pelos diretores de serviços, prémios aos trabalhadores e até pagar salários acima do que está convencionado. mas não gosto de emigrantes e sou xenófoba. voto no chega.

sou uma empresária de sucesso. os lucros da minha empresa permitem-me distribuir dividendos pelos membros do conselho de administração, pelos diretores de serviços, prémios aos trabalhadores e até pagar salários acima do que está convencionado. gosto da natureza e sou defensora dos animais. voto indiferentemente no psd, no ps ou no pan.

sou uma empresária de sucesso. os lucros da minha empresa permitem-me distribuir dividendos pelos membros do conselho de administração, pelos diretores de serviços, prémios aos trabalhadores e até pagar salários acima do que está convencionado. voto no cds porque sou católica e gosto de algumas coisas que o papa atual diz, embora considere um exagero a questão dos abusos sexuais vinda a público.

sou uma empresária de sucesso. os lucros da minha empresa permitem-me distribuir dividendos pelos membros do conselho de administração, pelos diretores de serviços, prémios aos trabalhadores e até pagar salários acima do que está convencionado. mas acho que há alguma coisa que está mal com os outros e quero ajudar quem mais precisa. pelo sim, pelo não, voto no be.

não sou empresária, mas sou colaboradora de uma dessas empresas. ou então pertenço a um estrato social, cultural e económico que não tem nada a ver, mas o que eu queria mesmo era estar lá e ter também uma casa de campo, uma de praia, um iate, um campo de golfe, uma praia particular e um mordomo. não há nenhum impacto em termos de intenção de voto porque voto exatamente nos mesmos partidos que os acima mencionados.

não, não sou empresária nem colaboradora de nenhuma dessas empresas. estou à espera do partido que defenda de forma clara valores solidários e que se comprometa com políticas de promoção da igualdade entre os cidadãos.

estou à espera do partido que se posicione de forma clara, assumindo políticas que se comprometam de forma inequívoca com a concretização dos objetivos de desenvolvimento sustentável – agenda 2030.

enquanto isso não acontece, assisto a debates, uns mais politicamente corretos do que outros, mas todos imbuídos de uma demagogia que me dá, umas vezes simples dores de barriga outras vezes náuseas e vómitos.

todos querem passar a ideia falaciosa de que gerir um estado é algo para apenas alguns iluminados que recebem esse poder de diferentes deuses, consoante a ideologia do mercado dos seus valores.

gerir um estado mais não é do que gerir de forma macro um sistema empresarial ou familiar.

eu recebo x, tenho as despesas fixas y e z de euros para gastar consoante as minhas prioridades. posso, em cada mês, optar por poupar, ou gastar o z em roupa, restaurante, cinema, livros, …

o estado, cujo orçamento depende dos nossos impostos, depois de cumprir com os compromissos, também tem z para dedicar aos mais diversos setores públicos: sns, educação, segurança, transportes, comunicações, tap, bancos…

tap, serviço público? eu só viajei uma vez de avião e não considero que seja algo de absolutamente essencial, porque, hoje em dia, a maioria das coisas que se precisam de fazer podem ser feitas à distância (para isso existe a internet).

bancos? sim, tenho um empréstimo à cgd (única forma de ter adquirido uma casa) cuja prestação pago religiosamente todos os meses. há outros bancos para quê?

estas curtas e “ingénuas” considerações servem para dizer que, enquanto não existir um partido que me faça sair para a rua porque apresenta ideias concretas para acabar com a fome, com a pobreza e com os sem abrigo involuntários, voto no partido que, não sendo o meu partido, é o que mais se aproxima das necessidades mais básicas dos meus concidadãos.

não sou comunista, não partilho de muitas das ideias expressas no seu programa, mas, entre todos os que li, é o partido que mais garantias dá aos mais desfavorecidos de que no parlamento votará a favor das leis que vão ao encontro das necessidades de quem tem menos voz e contra as leis que favorecem quem já tem mais do que precisa.

futuramente, espero ansiosamente votar no partido que ouse pedir-me mais impostos, ou parte do meu salário, para que quem não tem nada, ou tem menos do que precisa, possa ter uma perspetiva de futuro e um caminho mais suave para percorrer esta vida que passa a correr e termina de forma democraticamente igual para todos.

a menina borda d'água

Agosto 15, 2021

fio de beque

figueira-da-foz. marginal. esplanada da sagres. três da tarde.

um funcionário do topo da hierarquia simples do restaurante dava indicações enérgicas sobre a orientação e distanciamento da fila de espera e recomendava que aguardassem até ele dar ordem de entrada, apesar das visíveis e inúmeras mesas vagas de comensais.

não tínhamos pressa e a diligência sem sentido do colaborador pôs-me bem-disposta.

estava ali para usufruir de uma refeição e de uma conversa sem tema e sem tempo.

quando chegou a nossa vez, pensei que haveria um pequeno desiderato em relação ao local onde supostamente nos iriam ceder uma mesa, porque os anteriores parceiros de espera tinham sido conduzidos inexoravelmente para o interior do restaurante, apesar dos lugares vagos na esplanada.

mas não. ao ainda não concluído pedido de “podemos ficar na esplanada…”, o senhor indicou-nos uma mesa de quatro, apesar de sermos dois, e desapareceu no interior para sempre… e ainda bem.

feito o pedido, e naquela espera modorra de que alguma coisa viesse que pudesse ser trincada, passa uma menina com um cardápio de “bordas d’água” numa mão e de “pensos rápidos” na outra e pergunta “quer ajudar?”.

uma menina vestida com um kispo de inverno, apesar do calor de verão, sem qualquer sinal de transpiração ou de incómodo pelo excesso de roupa, uma tez morena, uma trança ainda não desfeita e uns olhos castanhos sem qualquer expressão.

a menina não evidenciava tristeza, nem desconforto, nem qualquer alerta de pedido de auxílio. um olhar fixo, distante, vazio de sentimentos e de emoções. um olhar sem qualquer espécie de possibilidade de interpretação.

“não quero, obrigada!”. ficou parada a olhar para mim sem olhar para mim e voltou a repetir sem qualquer entoação de pergunta “quer?”. após um segundo “não, obrigada!”, convicto, retomou a marcha sem qualquer indignação ou sinal de revolta como se estivesse domada para proceder exatamente assim.

a seguir veio a comida que foi degustada sem a presença daquela imagem que se foi na hora.

antes de sairmos, a menina voltou a passar na rua, sem nos ligar nenhuma. contava as moedas, passando-as de uma mão para a outra. e senti que o seu pequeno coração fazia contas precisas ao saldo. não percebi se era suficiente para a livrar de uma malha ou se tinha o suficiente para lhe darem qualquer coisa para comer.

quando chegámos ao carro, estacionado num parque ali bem perto, um envelope presenteava-se no para-brisas. “temos uma multa!”.

um diligente funcionário da dornier informava administrativamente, mas ainda assim educadamente, através de um talão daquelas máquinas tipo multibanco que fazem de tudo e até imprimem faturas, que estivera atento ao momento em que estacionámos e não metemos as respetivas moedinhas na máquina do parcómetro e assim que nos fomos embora emitiu responsavelmente o aviso de não termos título de estacionamento.

certo. assim como este funcionário cumpriu prontamente a sua missão de passar o aviso de pagamento em vez de vir ter comigo e alertar-me para que devia colocar as moedinhas no parquímetro, também eu devia ter ligado para os serviços sociais da câmara municipal, informando que uma menina de cerca de oito anos vendia na marginal a “borda d’água” e “pensos rápidos”, cujos rendimentos não estão previstos nas contas da bazuca da UE, para salvar a europa da sua/nossa/minha hipocrisia.

de regresso ao conforto da minha casa, passei por um outdoor com a fotografia de PSL. uma foto inexpressiva, um olhar que não vinha ao encontro do meu. vazio. não cheio do vazio da menina. obscenamente indiferente.

caro santana lopes, candidato à CMF, pode fazer a pergunta, que eu deveria ter feito e não fiz, e saber o nome destes meninos e destas meninas que deambulam pela sua cidade de estimação e traçar um plano para ajudar estas crianças a serem pessoas, sem as obrigar, nem às suas famílias, a serem como nós?

há dois dias que não durmo

Julho 27, 2021

fio de beque

Saramago e a capacidade inata de escrita

José Saramago proporcionou-me a vívida e inesquecível sensação de estar diante de um semáforo, que controla os movimentos básicos da vida (para, espera, avança) e deixar de ver. O seu ensaio sobre a cegueira foi a minha tese para a lucidez do existir.

Partilho a sua opinião de que todos temos algo para contar e que, por isso, todos somos, ou podemos ser, escritores. Uns fazem-no mal, outros assim-assim, outros menos mal, alguns bem e poucos de forma única. Não interessa. A partir de determinado ponto da evolução, escrever é algo intrínseco à humanidade.

Estou de férias e com dificuldades de adaptar a nova rotina aos horários que odeio, mas cumpro escrupulosamente quando assim tem de ser. Agora, acordo cedo, sem qualquer razão plausível, depois de me ter deitado tarde e começo a pensar, sorrindo, que estou com um qualquer stress motivado pela pandemia.

“Contra mim” e “sono”

Ouço música, de Amy Winehouse a Paganini, da Filarmónica do Gil a Jacques Brel. E, sobretudo, leio muito. Foi assim que me aconteceu o contacto com o “Contra Mim”, de Valter Hugo Mãe, seguido do “Sono”, de Haruki Murakami.

E, pasme-se… calhou mesmo bem esta sequência aleatória. Valter Hugo Mãe afasta-se 360º do “A Desumanização” e Haruki Muraki escreve a 380º do “Pássaro de Corda”. Na verdade, penso que devem ter passado pelo mesmo portal literário e combinaram, de forma cúmplice, dar a volta aos leitores para nos mostrarem que também são escritores normais e não apenas geniais.

A simplicidade, a clareza e a quase ingenuidade, da linguagem com que Valter retrata, ainda que de forma fictícia (espero eu), a infância e adolescência de um rapaz que podia muito bem ter sido a dele, comove. E a história tem um final suspenso.

A forma despreocupada como Murakami se interessa pelo dia a dia de uma mulher da classe média, que substitui a vontade de dormir por uma desmedida apetência por chocolates e histórias com infindáveis páginas de Tolstói, desconcerta-nos. Ups, felizmente e inteligentemente, não tem um happy end.

Não sou crítica literária, nem diretora de uma editora, mas parece-me que se estes dois escritos fossem recebidos a seco não seriam editados.

Isto para reconhecer que o mérito de um escritor tem a ver com a obra no seu todo, com o seu percurso literário, com a imensidão de registos, com a essência que imprime à sua escrita. A genialidade permite-lhes fazer isto que é tão pouco usual e generoso. Afinal, escrever é contar uma boa história. Uns gostam, outros detestam, mas a mestria continua lá.

Até os cegos a veem, se o livro estiver em braille!

 

A redoma de Tiago Brandão

Julho 15, 2021

fio de beque

Conhecem aquelas redomas em formato de bibelot, onde cai neve em Nova Yorque ou em Paris? Não sei se já há no mercado algo semelhante com a azinheira e os pastorinhos da Cova da Iria. Deixo o desafio à diocese de Leiria-Fátima. Parece-me que o ministro da educação alugou uma dessas pousadas imaginárias para incrementar o turismo de habitação e validar políticas sem qualquer nexo nem qualquer anexo.

Aviso os leitores de que tenho plena consciência de que, face ao panorama universal das políticas educativas e do acesso à escola, Portugal é um país privilegiado e que aprender, mesmo nas piores condições, é sempre preferível a pura e simplesmente não ter direito a frequentar um sistema público de educação. Ensinar ao ar livre, à chuva e ao sol, debaixo de um embondeiro ou de uma azinheira, num barracão, ou simplesmente de forma informal, é um passo para quebrar as desigualdades gritantes ao nível do investimento que uns fazem com muito esforço na educação, que alguns fazem para parecer mais ou menos integrados no sistema e que outros simplesmente e despoticamente não o fazem.

Para situar o meu ponto de vista, digo que trocaria o acesso universal à aprendizagem de todos os meninos e de todas as meninas e de todos os jovens a nível mundial, por turmas de 30 ou mais alunos nos países “ditos” desenvolvidos.

O impacto do número de alunos por turma em Portugal é uma questão muito antiga, que nenhum governo quis de forma assertiva resolver.

Em tempos idos, quando ainda não se sonhavam os agrupamentos de escolas e as comunidades educativas locais, em territórios geográficos de dimensão muito pequena, tinham algum poder de decisão através de uma argumentação factual sobre a constituição de turmas, era normal a constituição e a homologação de grupos de 14 a 20 alunos e tudo o que ultrapassasse esta amplitude era de forma consensual aceite como um entrave ao sucesso escolar e educativo dos alunos.

É uma aberração que, passados mais de vinte anos, os órgãos de poder e os decisores políticos ainda não tenham percebido a relação custo/benefício do número de alunos por turma, sobretudo nos anos decisivos que influenciam de forma irreversível o percurso de vida e o sucesso escolar e educativo das crianças e jovens deste país; refiro-me aos grupos da educação pré-escolar e às turmas iniciais do 1.º ciclo do ensino básico. O investimento, em termos de recursos humanos e materiais, seria muito inferior ao que inevitavelmente será despendido no futuro em termos de SNS, assistência social, rendimento mínimo, subsídio de desemprego, entre outros. Este é um problema recorrente do nosso país. Somos gente de bom coração, que resolve de forma esperta uma série de situações prementes, mas que não tem capacidade objetiva de planeamento, nem avalia a médio e a longo prazo a relação de custos/benefícios das políticas educativas.

Resolvido o problema do número de alunos por turma, podemos concentrar-nos agora no apoio educativo a que todos os alunos têm direito para acederem de forma equitativa às aprendizagens essenciais previstas para o “glamoroso” perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória

Atenção, como dizia eu sei quem, não há alunos com dificuldades de aprendizagem, há professores com dificuldades de ensinagem. É um daqueles chavões que soa bem em qualquer congresso, conferência ou, nos dias de hoje, webinar sobre educação inclusiva ou sobre o desenho universal da aprendizagem, tão na moda das equipas multidisciplinares de apoio à educação inclusiva, que não inventaram, mas assumem como excelente a legislação produzida sobre medidas universais, medidas seletivas e até medidas adicionais, para que todos tenham acesso ao currículo. A confiança cega, que é a materialização da fé inabalável, na implementação adequada destas medidas, garante a visão a 360º a todos e a todas, até aos cegos de nascença.

A realidade, que é muito menos prosaica e esbarra em dificuldades de toda a ordem (sociais, culturais, genéticas), garantiria aos cegos, aos surdos, aos portadores de uma incapacidade física ou cognitiva, num mundo em que as turmas tivessem um número adequado de alunos, o apoio a que têm direito, de forma eficaz, inclusiva e com benefícios para todos os elementos de uma equipa de ensino e de aprendizagem.

É verdade. A classe docente está velha, resmungona, sem ideias tipo eureka, farta de burocracias em doses triplicadas, de miúdos impertinentes e sobretudo de pais que acham que cumprem um desígnio nacional ao terem filhos, depois lavam as mãos apesar de não serem chineses e acreditam ortodoxamente que isso lhes confere o direito, sem grandes nem pequenos problemas de consciência, de colocarem nas mãos das estruturas do estado, desigandamente na escola pública, a educação dos seus herdeiros.

Tiago Brandão está muito preocupado com a inflação das classificações da avaliação sumativa interna. Eu não estou. Ele também não devia. Como é do senso comum, a mentira tem perna curta, e não é a inflação de notas que permite temporariamente o acesso indevido ao ensino superior, ou outro, que vai travar outra competição muito mais demolidora, a nível de mercado de trabalho de quem emprega segundo o perfil do umbigo do candidato e não das capacidades e da inteligência emocional e colaborativa do candidato. Só se deixam enganar as empresas que quiserem ser enganadas ou as que coniventemente fazem parte da máfia dos que acham que são donos disto tudo.

 

SOS bloggers do sapo

Abril 02, 2021

fio de beque

car@s camaradas da comunidade

a situação dramática de milhares de crianças em todo o mundo, anterior e agravada por esta avassaladora pandemia, não vos é certamente indiferente, pelo menos para alguns.

o meu apelo é para que, por favor, deixem por um dia de olhar para o vosso (eu também vou deixar de olhar para o meu) umbigo. o terrorista de serviço, que escreve (e muito bem) sobre tudo o que nos chega do quotidiano, até sobre bolos, escreva sobre este tema. não, peço desculpa, sobre bolos e comida gourmet, comida confortável e simplesmente comida, o blog de serviço é o do casal mistério. este pode escrever sobre como sobreviver com comida recolhida no lixo. sobre poesia, literatura de viagens, diários de depressão antes e após confinamento, falam muitos outros, mas quase sempre os mesmos. podem, desta vez, falar sobre as dores generalizadas que a privação de comida provoca ma maioria das crianças. quem fala sobre a existência ou não de cocó na fralda pode falar da falta de vacinas para a prevenção de doenças que na nossa europa já foram erradicadas e as crónicas das meninas boas ou más, podem escrever sobre a falta de oportunidades de escolher ser-se alguém. tenho alguma evidência de má escolha ou de corrupção para os destaques na página principal do sapo, para além do número de seguidores e leituras registadas? não. este mundo é o que é. a exposição, a publicidade e as visualizações conduzem ao natural destaque dos posts e dos seus autores, acho eu. certamente que estão de acordo com as regras editoriais, que desconheço, e que assim os posicionam. hoje não quero saber de nada disso. apenas do eco de milhares (milhões?) de crianças que, diariamente, passam mal (muito mal) em todo o mundo. será que esta comunidade do sapo não pode fazer nada para minimizar as péssimas condições em que todas estas crianças vivem o seu dia  a dia?

proponho que, neste mês de abril, o bloggers se concentrem em postar, pelo menos uma vez, sobre esta vergonhosa situação. é um desafio a todas as criaturas que acreditam que, apesar de todos os constrangimentos, este mundo, sendo um mundo de injustiça e de desigualdades, se todos e todas quiséssemos este mundo poderia ser um local menos injusto, menos egoísta e mais solidário.

é um desafio avassalador, mas pode fazer uma pequena diferença, não para apaziguar as nossas consciências entorpecidas, mas para possibilitar dias um pouco menos negros para quem nasce e nunca pediu para nascer.

já agora, ser amig@ da UNICEF já faz alguma diferença!

aberta a caça aos 0,5% do IRS

Março 31, 2021

fio de beque

não sei bem como qualificar este fenómeno extremo. é uma espécie de miscelânea de poeira do deserto com os pólenes da primavera. entre o deprimente e o deplorável, fico-me pelo adjetivo patético.

na minha caixa de correio eletrónico recebo, desde há algum tempo, apelos de todos os quadrantes, desde o “Salvador” à Associação x, y e z…

até na caixa de correio tradicional, já tranquilamente habituada ao vazio, depositam informação sobre as melhores opções que devo tomar nesta área e não têm a ver com o desentupimento de esgotos. na televisão, na rádio, na imprensa… os apelos sucedem-se. e eu, interrogo-me, com aparente ingenuidade, sobre a razão desta corrida de mini fundo aos meus míseros e insignificantes 0,5% dos impostos já pagos.

claro que sei que para muitos esta consignação deverá (só pode, tendo em conta o investimento em publicidade) e poderá fazer a diferença na concretização de muitos projetos. e não desvalorizo esta realidade.

ainda não questionei o/a procurador(a) geral da república nem investiguei sobre a fundamentação teórica para esta liberdade de escolha do cidadão contribuinte. mas parece-me que, como é habitual nas democracias ocidentais, deve ter raízes nas filosofias amplamente democráticas, de participação, de envolvimento dos cidadãos, de partilha de poderes e de decisões.

sinceramente, tenho um problema. é que não consigo decidir entre os bombeiros locais (os voluntários e os da autarquia), a associação recreativa de cima e a de baixo, entre a filarmónica w e a k, entre a associação de recuperação dos cidadãos g ou a inclusão dos cidadãos h, entre os amigos da natureza e os amigos dos animais.

já perceberam o meu ponto de vista e tudo depende do ponto de vista.

o meu é, não estando em condições de decidir em termos de proximidade, alargar o meu leque de solidariedade e priorizar as necessidades.

assim, e tendo em conta que não sei para que lado próximo me virar, devo focar-me no prioritário. declaro que já consignei o meu modesto 0,5% do IRS à UNICEF. os fundos canalizados para a UNICEF fazem uma pequena grande diferença. esta diferença concretiza-se na vida ou morte de milhares de crianças em todo o mundo. e só a UNICEF sabe onde esta ajuda representa que uma criança tenha alguma hipótese de vida e de futuro ou conste num relatório anual de mortes por fome, subnutrição, falta de assistência média, maus tratos…

desta vez só fui do contra um bocadinho. basicamente vou seguir o carreirinho das outras formigas e pedir às mulheres (de forma aleatória quanto à escolha do género) que consignem o seu 0,5% à UNICEF e deixar aos homens a escolha das entidades locais para a sua doação, ou vice-versa.

 

 

manifesto contra a natalidade

Março 25, 2021

fio de beque

autarquia oferece boda de casamento e prémio extra a casais residentes que assumam não querer ter filhos

é verdade. pela primeira vez e fugindo ao socialmente correto, uma autarquia pensou seriamente nas condições oferecidas pelos serviços públicos às famílias que têm filhos (simplesmente porque têm), sem qualquer projeto de vida familiar e que abandonam os descendentes aos supostos benefícios concedidos pelo estado e ao encargo de outros, que não eles próprios, e decidiu fazer eco do que é responsavelmente correto.

se quer ter filhos, mas parte do princípio, que hoje lhe parece razoável e um bom investimento segundo o que é apregoado publicamente, de que outros tomarão conta deles e os educarão, desengane-se. está na localização errada e deve mudar de residência porque este espaço geográfico não lhe vai dar qualquer apoio pelo facto de ter filhos. a partir de agora não verá nem ouvirá mais qualquer publicidade de mais valias pelo facto de os ter, antes pelo contrário.

esta autarquia está farta de pais que não educam e entendem que a educação é tarefa da escola, dos docentes e não docentes, das equipas multidisciplinares de apoio à educação e à inclusão, dos serviços de psicologia e de assistência social e de pedopsiquiatria… que não têm.

esta autarquia e estes docentes e não docentes e outros profissionais de educação estão cansados de serem tratados como profissionais polivalentes que, no entender dos pais, deveriam ser a tempo inteiro professores, assistentes operacionais, psicólogos, pedopsiquiatras, assistentes sociais e educadores.

claro que não o são e apesar de haver algumas almas peregrinas que o publicitam e que acham que eles e elas o podem e até acham que deveriam ser tudo isso (porque são obviamente maus pais e até presidentes de associações com os mais diversos objetivos no domínio da educação e ao mesmo tempo candidatos partidários a funções públicas),  a escola não é um serviço para todo o serviço. a escola pública é um espaço público de aprendizagem. um espaço de aprendizagem aberto para quem quer aprender. e quem tem realmente vontade de aprender aprende à sombra de um embondeiro, de um carvalho, com manuais ou sem manuais, com ou sem equipamentos informáticos, com ou sem plataformas sofisticadas de e-learning.

quando nas escolas do serviço público estão calmamente e “protegidas” crianças de 6 a 10 anos e respetivos progenitores que insultam os assistentes operacionais e lhes chamam de filhos da mãe, estúpidos e deficientes, os mandam à merda, pró caralho (sem saberem o significado daquele cesto da última posição da hierarquia de um barco) e afins…e aos progenitores nada acontece, alguma coisa está realmente muito mal no reino da educação.

a culpa não é das crianças? a sério? claro que não. mas se as próprias crianças dizem que não percebem qual é o problema e não entendem porque são chamadas à atenção porque é assim que tratam os progenitores, digam-me por que razão se incentiva a natalidade?

ter filhos não é como colecionar selos do continente para obter copos de graça (entre aspas), ou é? ter filhos não é uma afirmação de fertilidade. ter filhos é um ato de amor. e quem não ama não os deve ter.

a escola, enquanto serviço público, presta um serviço educativo em colaboração com as famílias. não pode e não deve substituir-se às famílias. esse é um erro que foi amplamente divulgado e que agora não há, como não tinha nem tem que haver, resposta para ele. a escola não tem como função substituir a família.

juntem-se a esta autarquia e defendam uma parentalidade responsável. quem não pode educar os filhos, por favor não os tenha. acabaram definitivamente e sem recurso os incentivos.

a partir de agora, só damos apoios aos casais que assumam o compromisso de não terem filhos. recorram diligentemente aos serviços de planeamento familiar, peçam gratuitamente a pílula diária, a pílula do dia seguinte, façam uma esterilização. sejam assertivos quanto à vossa decisão e pretensão ou os serviços podem tentar baralhar-vos com terapias que não terão acolhimento nesta autarquia. ter filhos deixa de ser uma boa opção nesta fatia do território.

oferecemos a boda de casamento no dia do nosso santo padroeiro e um prémio significativo para quem assuma que não vai ter filhos (se os tiver vai ter que o devolver com juros).

por favor, sejam felizes e não se iludam. não tenham filhos!

Carta aberta ao Confinamento

Fevereiro 20, 2021

fio de beque

Meu querido Confinamento

Sei que não sabes por que razão és para aqui chamado. Eu explico-te. Fui eu que te chamei à colação. Não fiques aborrecido porque, apesar de teres para muitos e muitas um sentido negativo, eu aprecio a tua essência. Por isso, estamos conversados e estamos bem. Certo?

Em primeiro lugar, quero atribuir-te os louros por nos permitires seres o resultado de uma maldita, para uns, bendita para outros, pandemia.

Já não gostava muito de pessoas. Na verdade, também não passei a gostar mais do que já gostava (e não era muito) de animais, que não humanos.

Sinceramente, o que me aborrece e entristece é este afastamento compulsivo das crianças que são a minha matéria-prima de trabalho, para as quais presto (e respetivas famílias) um serviço público. Que deveria ser de qualidade, mas que, todos sabemos, nem por lá anda perto, porque o governo se esqueceu (leia-se, não quis) de adquirir os equipamentos informáticos e o acesso à rede de internet, indispensável para esta espécie ridícula que ainda continuamos a chamar de E@D, quando deveria chamar-se de “vamos lá aguentar esta coisa, enquanto os números de infetados e de mortos não baixam para o que está estabelecido, pelos peritos, como aceitável”. Perceberam? Há um número aceitável de infetados e de mortos. Porque uns estão definitivamente mais mortos e outros mais infetados, do que outros.

Esta minha relação diferente com os seres de pouca idade, não é um paradoxo, quando ligada com o facto racional de não gostar de pessoas. É que a saudade que sinto das crianças não está relacionada com o ódio de estimação que tenho pelos adultos. Pensem comigo. As crianças não são bem pessoas. Isto é, claro que inequivocamente são pessoas, mas são pessoas muito específicas porque ainda não estão estragadas. E mesmo o número reduzido, que já possa estar estragado pela hipocrisia da sociedade democrática (?) que ergue a bandeira de que todos somos iguais perante a lei, ainda está muito a tempo de ser salva. Assim haja vontade, amor, carinho e solidariedade. O resto das pessoas, adultos mais novos, séniores, ou em fim de vida, meus amigos, sempre me interroguei por que razão alguém de 97 anos entende que deve ser prioritário para receber a vacina da COVID-19. Caríssim@, já viveu mais do que era suposto, qual é o seu problema? Já ouviu falar em número de batimentos para que geneticamente o nosso coração está preparado para bater? Está a atingir o seu limite. Seja louco(a). Aproveite! Se não puder aproveitar, lamento. Recorra à eutanásia, que deveria ser uma opção pessoal e não uma questão gerida pelo estado!

Meu querido Confinamento, obrigada por me ajudares a perceber que o melhor de nós não está no relacionamento com os outros. O melhor de nós está mesmo e apenas dentro de nós. E, sim, quando o que está dentro de nós é algo de bom e de solidário para com os outros, mesmo que não gostemos dos outros (isso não quer dizer que não desejemos o melhor para todos), não há confinamento que permita o “salve-se quem puder”! Porque ninguém se salva sozinho! Quando queremos salvar-nos sozinhos, não nos vacinamos, suicidamo-nos.

 

nós, portuguesas

Outubro 10, 2020

fio de beque

Nós, portugueses (e portuguesas, acrescento eu)

Este é o título da reportagem que passou na RTP 1 nos dias 08 e 09 de outubro, a seguir ao telejornal.

O Governo e o Ministério da Educação deviam ser como a avestruz que não enfia a cabeça na areia perante as dificuldades.

“Partir para não chegar”.

A reportagem posicionou-nos numa questão pertinente para os objetivos da educação em todo o mundo e deixou-me a pensar, mais uma vez, nas desigualdades que as crianças enfrentam desde que nascem. É consensual e irrefutável que partimos todos do mesmo ponto. Nascemos despidos de tudo. De parto natural, de cesariana... com mais ou menos cuidados pré natais, o que já vai estabelecendo alguma desigualdade mas, ainda sem grande impacto para o facto de nascermos sem pedirmos para nascer. Nascemos sem nada e com um devir que, logo à nascença, se torna desigual. Porque nascemos numa família, que pertence a um contexto social, que vive em determinado país, em determinado bairro, que nasce no seio de uma cultura, de um grupo maioritário ou minoritário na sociedade…

Partimos exatamente do mesmo ponto, mas ficam pré determinadas à nascença as hipóteses de onde vamos chegar. E isso é profundamente desigual e injusto para quem nasce e não teve qualquer voto na vontade de existir.

As sociedades de todos os países do mundo não têm conseguido resolver (é verdade que com evoluções diferentes de região para região) esta questão da desigualdade de oportunidades.

O peso do meio social, cultural, habitacional e outros, continuam a ter uma dimensão inalterável na realização dos projetos de vida. Ser ou vir a ser uma ou outra coisa continuam a estar diretamente relacionados com estes pressupostos de partida. Uns partem exatamente junto à linha de partida e outros não têm o equipamento, nem sequer sonham que ele existe, para competirem em pé de igualdade com todos.

Os estudos indicam que dos 0 aos 6 anos ficam determinadas as condições de posicionamento na grelha de partida. Acho que todos os profissionais da educação sabem isto. No entanto, apesar de todas as políticas educativas assentarem na filosofia de que esta é uma verdade incontornável e de legislarem no sentido da igualdade de oportunidades, na prática não providenciam ou não conseguem obter o financiamento necessário para que o dia-a-dia responda a este desafio de discriminação positiva.

De facto, ao entrarem no 1.º ano do 1.º ciclo, as crianças ou têm as competências necessárias para a aprendizagem da leitura e da escrita e da iniciação ao cálculo e às operações com números, ou ficam irremediavelmente para trás, podendo seguir em frente em termos formais, mas sempre com défices a este nível, o que irá condicionar todo o seu percurso de aprendizagem. Não é uma questão de retenção ou não no mesmo ano, que considero ser sempre penalizadora e sem qualquer benefício para criança. Mas não é o facto de ela continuar a avançar no seu percurso escolar que desvanecerá a desvantagem que já se colou ao seu percurso e que nunca a abandonará. A intervenção tem de focar-se nos primeiros anos de vida e nos primeiros anos de escola formal. Ou as desigualdades são ultrapassadas no pré-escolar, ou pelo menos no 1.º ciclo de estudos, ou a criança avançará sempre com dificuldades, que a colocarão no nível de continuação da reprodução do contexto familiar, social, cultural e académico da geração anterior.

Podia abordar muitos aspetos do problema, mas vou focar-me na questão dos apoios educativos.

Sinalizar precocemente os casos onde é necessária uma intervenção, quer familiar, quer individual junto da criança, que até já é feita pelas equipas de intervenção precoce, pelas comissões de proteção de crianças… é importante, mas, sinalizados os casos, que tipo de intervenção é feito? Uma intervenção de acordo com a disponibilidade e horários dos educadores, professores e outros técnicos de intervenção.

Na maioria dos casos, essa intervenção é feita no horário normal das crianças, ou seja, elas são retiradas do grupo ou da turma para usufruírem dos apoios que supostamente são uma mais-valia, mas perdem o contacto e a as aprendizagens do grupo.

Este é para mim, há muitos anos, o grande (e nunca resolvido) problema dos apoios e terapias educativos.

Se uma criança necessita de compensação, a nível de reforço de aprendizagens gerais ou específicas, a mesma não pode ser feita em horário que coincida com o horário normal do grupo. Se assim acontecer, provavelmente os ganhos do apoio não superam as perdas da aprendizagem feita em grupo.

É preciso marcar a diferença e estabelecer que os horários dos apoios e das terapias não se compadecem com o horário tipificado das 08:30 às 16:30. A maioria das crianças alvo de intervenção precisa de uma intervenção fora desse espaço. Elas precisam de uma vantagem em termos de exposição à aprendizagem, uma vantagem que não lhes roube a presença no trabalho de grupo e lhes proporcione um trabalho individual, ou em pequeno grupo, gratificante e significativo, que esbata a diferença com que partem.

Só poderão ter hipóteses de chegar tão longe quanto as outras se forem compensadas pelas diferenças na hora de partida e, de preferência, antes da hora de partida.

Os professores de apoio educativo, os psicólogos e os terapeutas, não podem ter um horário semelhante ao horário das crianças/alunos. A sua intervenção tem que se realizar em tempos de AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular), pós horário das atividades ou letivo e sábados. Devem ser compensados por isso? Penso que sim. Mas provavelmente há quem esteja disposto a concorrer a horários de trabalho diversificados que não sejam o estereótipo das 09 às 05.

Com isto não quero dizer que a criança da reportagem que deu mote a esta reflexão, e é filha de um bombeiro e de uma mãe que trabalha num lar e que guarda cabras e sabe tudo sobre plantar batatas e ordenhar cabras, não venha a ser muito mais feliz do que o menino que já visitou muitos museus e se diverte com as batidas das músicas. A questão é que o menino que passa as férias a trabalhar com o pai no campo o faça no futuro porque conheceu os museus e a música e viajou e quer, ainda assim, continuar a plantar batatas e que o menino, filho de uma investigadora, possa querer passar a sua vida a investigar a capacidade leiteira das cabras do Cabril.

E também há a exceção à regra, visível nas crianças que, apesar de todos os constrangimentos e fatores de origens diversas que procrastinam o futuro igual ao passado, conseguem ter a força para ultrapassarem os obstáculos e mover as montanhas que vão encontrando e conseguem ser aquilo que sonham ser. Não precisamos de nos preocupar com essa percentagem ínfima, porque essas não precisam da nossa ajuda para lá chegarem. São mentes brilhantes que surgem do nada (deverá haver, ou não, explicações científicas, razões de genes, de identidade pessoal, de fatores individuais, de passados remotos). Essa é a percentagem que contradiz a regra e que, por ser tão baixa, não releva para o nosso empenho de contrariar o destino e promover as condições para fornecer a todos e a todas as sapatilhas necessárias para iniciar a corrida em pé de igualdade. A meta não deve estar estabelecida. Não há vencedores, nem vencidos. Deve haver um lugar, o lugar escolhido por cada um para ser feliz. O sucesso é isso. O sucesso educativo não é a fama, nem o salário do Ronaldo como paradigma. O sucesso é cada um poder chegar exatamente onde as suas capacidades e/ou a sua vontade o quiserem fazer chegar.

A felicidade não está no nível social do que fazemos, mas na possibilidade de escolha livre do que queremos fazer.

Essa é a oportunidade que todos merecem ter. Infelizmente, as políticas educativas escrevem belíssimos tratados de filosofia na introdução dos documentos legislativos, mas, logo a seguir, na regulamentação dessas políticas, não garantem autonomia nem recursos às escolas para que localmente a educação possa ser um ato de transformação da sociedade, no sentido de uma verdadeira igualdade de oportunidades. Nesse sentido, o decreto-lei 54/2018 é o maior embuste dos últimos anos e faz como uma certa avestruz do nosso imaginário: perante as dificuldades, parece que enfia a cabeça na areia.

Conheci uma senhora idosa da província que, chegada inesperadamente a uma cidade com muitos ruídos, movimento intenso de pessoas e de veículos, bloqueava para atravessar a rua e, para o conseguir fazer, levantava a saia comprida, tapava a cara e, não convencida do sucesso, mas com alguma fé, dizia: “Seja o que Deus quiser!” e corajosamente atravessava.

Era certamente um génio porque atravessou as ruas, desta forma militante e peculiar, dezenas de vezes e não morreu atropelada. Partiu, naturalmente, anos depois, quando regressou enfastiada da grande cidade e voltou a fazer tricot na distância segura e na tranquilidade feliz do alpendre da sua casinha de pedra, enquanto dormia.

 

a teoria de tudo e a teoria de nada

Outubro 06, 2020

fio de beque

                                                                               dedico este escrito aos inadaptados

Inadaptado, adj. que não se adaptou; rebelde ao meio, ao fim; sinónimo de pensador, nas versões masculina e feminina e de rebelde na versão assexuada.

Partilho a opinião de que a essência é o que temos em comum com todos os seres vivos do universo. E será essa que há de explicar a origem de tudo e a origem de nada, mesmo daquilo que não é aceite como ser vivo, mas que existe. A consciência é a origem de tudo, independentemente do processo e do estado material ou imaterial da coisa. E a consciência já estava lá, sob a forma de devir, até nos seres primitivos da vida e simplesmente unicelulares.

Mas… e os seres não-vivos que, segundo a ciência (que já sabemos que não detém nenhuma verdade, muito menos perene) não têm vida, de onde vieram? Na sua essência derivam de forma mais ou menos direta, mais ou menos complexa, também da essência da vida, tiveram a mesma origem remota da coisa dita vida, ou não? Eu aceito que sim.

Uma pedra, uma nuvem, um saco de plástico, um parafuso, carregam na sua origem a mesma essência que provocou a existência mais ou menos elaborada do existir das coisas.

“Diz-se, por exemplo, que há uma árvore ali fora, perto da minha janela, mas na verdade, eu não a vejo. Por algum ardiloso artifício, do qual apenas os passos iniciais e relativamente simples são explorados, a árvore real projeta uma imagem em minha consciência e é disso que me apercebo. Se você ficar ao meu lado e olhar para a mesma árvore, esta projetará também uma imagem em sua alma. Eu vejo minha árvore e você, a sua (notavelmente igual à minha) (ou não?, se calhar não, porque tu não vês a árvore pelos meus olhos, nem a interpretas da mesma forma que eu porque a nossa história de vida é diferente. Pode ser para ti uma árvore associada a momentos significativos e gratificantes e, para mim, que fui violada sob uma árvore da mesma espécie é algo de negativo e horroroso) e o que a árvore é em si mesma nós não o sabemos. (será que ela sabe?) Kant é o responsável por essa extravagância (Schroedinger, 1997, p. 100).”

O que é a árvore em si mesma, tem uma leitura para ti e uma diferente para mim. A árvore até pode nem saber disso, mas a árvore que tu vês não é a árvore que eu vejo, embora na sua essência e no mundo das árvores possa ser a mesma e aquela árvore específica.

As grandes contradições que o homem encontra em si mesmo – liberdade e necessidade, autonomia e dependência, o eu e o mundo, relações e isolamento, atividade criadora e condição mortal – já estão germinalmente prefiguradas nas mais primitivas manifestações de vida, cada uma delas mantendo um precário equilíbrio entre o ser e o não ser, sempre já trazendo dentro de si um horizonte de "transcendência" ... – uma escala ascendente de liberdade e risco que culmina no ser humano, o qual talvez possa chegar a uma nova compreensão de sua unicidade quando deixar de considerar-se um ser metafisicamente isolado (Jonas, 2004, p.7).

Penso que começa aqui o nosso erro. Pensarmos que somos um ser na escala ascendente da coisa, quando podemos ser, uma aberração da coisa.

Tão constitutiva para a vida é a possibilidade do não ser, que seu ser é, como tal, essencialmente um estar suspenso sobre este abismo, um traço ao longo de sua margem. Assim, o próprio ser, em vez de um estado, passou a ser uma possibilidade imposta, que continuamente precisa ser reconquistada ao seu contrário sempre presente, o não ser, que inevitavelmente terminará por devorá-lo (Jonas, 2004, p. 14-15).

A vida é um paradoxo, se distingue em uma condição instável em que o ser só existe em relação. O não ser e o outro são condição e, ao mesmo tempo, ameaça à existência. Essa é a circunscrição que expressa a transcendência como condição básica da vida por mais rudimentar e pré-espiritual que seja. Se isso for assim, é possível afirmar que o espírito está pré-figurado na existência orgânica (Jonas, 2004)."(...) viver é essencialmente estar relacionado com algo; e relação como tal implica transcendência, implica um ultrapassar-se por parte daquilo que mantém a relação" (Jonas, 2004, p.15).

Somos seres umas vezes suspensos, outras vezes já irreconhecíveis, entre o existir, o ser e o não ser. O tempo é uma equação tão frágil e por vezes nem chega a ser o y da questão. Só existimos em relação com o outro e o outro é o cosmos que, tendo em conta a inconstância da existência, da omnipresença, pode ser passado, presente ou futuro, ou simplesmente não ser.

A filosofia da vida pode ter uma importância crucial para reorientar a ciência da vida no sentido de alcançar a perspectiva da integração entre corpo e mente. Haveria uma condição física essencialmente biológica, ou seja, correspondente à ontologia do vivo. A misteriosa passagem do nível quântico ao nível clássico está até hoje em uma dimensão metafísica. Ela não é passível de explicação objetiva, mas é uma evidência acessível à observação e pode vir a ser imputada a uma condição vital. A perspectiva de unificar os mundos físico, biológico, mental e espiritual pode ser possível se aceitarmos um limite na capacidade do homem conhecer o universo.

Bom… a censura cósmica entra aqui, até que haja uma borracha que eficazmente a elimine. O chamado lápis azul. Serão suficientes os neurónios e a cabeleira das células que atualmente se move enquanto nos vestimos para descodificarmos o mistério? Se fazemos parte do mistério, parte da resposta está na nossa consciência, ainda que a censura cósmica (ainda) não nos permita desvendá-lo.

Nota:

O meu lado feminino das coisas

O cosmos, o quântico, o universo, o buraco negro, o átomo, o fóton…

A vida, a coisa, a consciência, a identidade, a fertilidade, a divindade…

Tudo o que é poder é culturalmente masculino, tudo o que é questionável é culturalmente feminino.

A origem da coisa, só podia ser uma questão de reprodução: a reprodução que se faz na origem da coisa, que é, por definição, multiplicadora, feminina.

O pensamento mais não é do que uma metáfora para a procura da origem das coisas.

Mas não é, definitivamente, apenas uma questão cultural e de genes.

 

PS

Quando escrevi este texto, ainda não sabia que Roger Penrose foi um dos vencedores do prémio Nobel da Física.

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